O falso apocalipse da não exigencia de diploma para jornalista

Ontem (17/6) o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu por oito votos contra um* que o diploma de jornalismo não é obrigatório para exercer a profissão. Os protestos, sobretudo via Twitter, começaram quase imediatamente após a decisão do STF. Jovens estudantes de cursos de Jornalismo, estagiários, todos atordoados, crentes no apocalipse. Mas não vai mudar nada, ou quase nada.

Comecei a trabalhar como jornalista aos 18 anos, em abril de 1968, depois de um ano de estágio como repórter setorista. Ainda não havia exigencia de diploma, o Ministério do Trabalho dava o registro de jornalista um ano depois do estágio, os cursos de Comunicação estavam apenas começando. Fiz curso superior (Filosofia) mas meu aprendizado de jornalismo foi no batente. Antes de ser repórter, fui arquivista, aprendi a fotografar e diagramar, aprendi a “fechar” o jornal, acompanhava o trabalho nas oficinas, fiquei apaixonado por arte gráfica desde então. Convivi com um redator chefe e um secretário de redação, respectivamente Durval Ayres e José Arabá Matos, que foram os melhores professores de toda uma geração de jornalistas cearenses. Essa formação não acontece mais assim. Mudanças tecnologicas levaram à segmentação e especialização, a Universidade contribuiu para agregar mais qualidade, possibilitou algumas raras carreiras acadêmicas pensando a Comunicação, mas são poucos os que escrevem bem, menos ainda os que têm permanente curiosidade e interesse em tudo, e sem estes predicados não se faz um bom jornalista.

Toda a técnica jornalistica dá para ser ensinada direto nas redações, em seis meses. Se não for aprendida nesse período, é melhor desistir. Mas as redações também não ensinam mais assim. Quem quer aprende nos livros, na universidade, na web.  E se adapta aos fantásticos avanços da tecnologia. Cada vez mais não haverá nada que se compare à liberdade e independencia de editar sua opinião em seu próprio blog. Mas nem todos estão preparados para isso. A exigencia de uma ampla base cultural é indispensável, até mesmo como vacina contra o provincianismo. E para quem nunca abriu mão da ética, a responsabilidade profissional só aumenta. Finalmente, a respeito de ética sendo aprendida em faculdade, se isso fosse verdade devíamos estar vivendo no melhor dos mundos. Nesse campo quem menos faz pela seriedade e honestidade profissional são os patrões da grande imprensa. Falar sobre quebra de ética nos jornalões brasileiros daria um tratado.

Sempre vai haver espaço e boa remuneração para quem souber escrever bem e tiver boa formação cultural. No geral a mediocridade vai persistir, e também patrões estúpidos, que pagam mal e contratam gente subqualificada. O diploma não muda isso. Seria necessário que as faculdades, sobretudo as instituições privadas, passassem por um processo mais exigente de qualificação. Poucas oferecem ensino de bom nível. As honrosas exceções servem para apontar as escandalosas deficiencias das “fabricas de diplomas”. Isso vale também para outras profissões . O jornalismo agora está na berlinda, mas o que dizer dos cursos de Direito?!

Contudo, a formação academica continuará sendo procurada, bem como mestrados e doutorados em comunicação. Empresas sérias (são poucas, é bem verdade) continuarão contratando quem tiver a melhor formação.

O que realmente representa uma mudança extraordinária de paradigma é a universalização da comunicação pela internet, o fim dos monopólios da informação. Nesse quadro o diploma é apenas um detalhe que tira o foco do mais importante que é a regulamentação da atividade.

Destrinchando a pauta: como fica a situação de free lancers, jornalistas formados e não-formados, os “provisionados” (designação tipicamente excludente criada pelo corporativismo sindical)? Como fica segurança previdenciária, indenização trabalhista, aposentadoria? Se não se define a regulamentação tudo o mais é retórica oca, briga pelo canudo e título de doutor, coisa bem típica da democracia seletiva e cartorial do Brasil.

Para quem é jornalista, ou quer ser, ou para os leitores que por acaso queiram entender melhor esse falso apocalipse, recomendo a leitura de “Os Pré-Cogs estão chegando! Caiu o diploma!” de Ivana Bentes, “A tentação obscurantista” também da I. Bentes; “O diploma e as faculdades de jornalismo”, de Luis Nassif, e um pequeno e inspirado texto, “…agora diga isso com uma imagem”, postado no blog de kobashi.

Para encerrar, vejam um excelente exemplo de jornalismo no trabalho da repórter Newsha Tavakolian, fotógrafa de 28 anos, nascida e criada em Teerã.

Ela faz a cobertura dos acontecimentos políticos no Irã para a agencia Polaris Images desde 2002, e também tem trabalhado para The New York Times como freelancer desde 2004. Clique aqui para ler sua entrevista e ver o slideshow das fotos que fez durante os protestos pós-eleições no Irã.

* No STF votaram contra a exigência do diploma o relator, ministro Gilmar Mendes, e os ministros Carmem Lúcia, Ricardo Lewandowski, Eros Grau, Carlos Ayres Britto, Cezar Peluso, Ellen Gracie e Celso de Mello. O ministro Marco Aurélio Mello defendeu a necessidade de curso superior em jornalismo para o exercício da profissão. Os ministros Joaquim Barbosa e Carlos Alberto Menezes Direito não estavam presentes na sessão.

~ por costaacf em junho 18, 2009.

Uma resposta to “O falso apocalipse da não exigencia de diploma para jornalista”

  1. Aos defensores frustrados da imprescindibilidade do canudo, recomendo calma. Se o curso é mesmo um divisor de águas, amanhã só sobrarão os “bons”. É só ter paciência. Eu, no entanto, estou pagando para ver…

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