O futuro dos arquivos digitais no século de petabytes de informação

O apagão da noite de terça-feira, 10/11, que deixou 18 Estados no escuro, me fez recordar Jane Jacobs, crítica do planejamento urbano, falecida em 2006 aos 89 anos. Em seu último livro (Dark Age Ahead, Random House 2004) ela disse que a internet dava um falso senso de segurança sobre a permanência da cultura. Jacobs acreditava que os milhões de detalhes de uma cultura viva e complexa não são transmitidos pela escrita ou qualquer outra representação gráfica, mas sim pela transmissão oral e pelo exemplo dos mestres de ofícios.

E o escritor italiano Umberto Eco sempre torceu o nariz para o armazenamento (storage) de informação em meios eletrônicos, mídias digitais, suportes como CD-ROM ou DVDs. Ele disse: “O formato do disquete de computador já desapareceu. Não durou 30 anos. Se tenho de deixar uma mensagem à posteridade, o farei em forma de livro e não em suporte eletrônico”.

A regra preconizada por Jane Jacobs é cada vez menos praticada e no cenário da comunicação digital do século 21 os sistemas de informação fornecem exatamente essa ilusão de segurança e onisciência. Pouco mais de duas horas de apagão serviram como demonstração de nossa fragilidade: celulares sem conexão, estações rádio base colapsando, degradação de ping para vários endereços na rede, até mesmo o Twitter começando a dar sinais de esgotamento à medida que baterias de celulares e notebooks iam descarregando. Sem nobreaks, sem becapes automáticos (nessas horas quem usa Mac e TimeMachine respira aliviado) muita gente que estava trabalhando em seus computadores deve ter perdido dados preciosos.

O cenário da noite de ontem serve para introduzir o tema do armazenamento e preservação da informação em midias ópticas. Numa época em que arquivos digitais são gradativamente guardados na nuvem virtual do Google, ZoHo, DropBox, File Dropper e outros ou então em HDs domésticos com grandes capacidades de estocagem, a TDK recentemente divulgou uma impressionante conquista técnica: um disco óptico de 10 camadas com capacidade para estocar 320 GB de informação utilizando a tecnologia Blu-ray. Para se ter uma idéia do que isso representa, os atuais discos Blu-ray tem uma capacidade de estocagem de 25 gigabytes por camada.

É interessante, mas chega atrasado porque o arquivamento óptico está com os dias contados. Veja as razões:

Capacidade: as melhores respostas competitivas das mídias ópticas aconteceram com o CD-ROM, no início dos anos 90, e com o DVD no começo da década de 2000. Mas o disco Blu-ray de multi camadas nunca deixará de ser apenas uma fração da capacidade de armazenagem dos discos rígidos atuais.

Desempenho: a taxa de transferência de dados do Blu-ray (24X) é a metade da oferecida pelos HDs atuais. E a medida que o espaço de arquivo aumenta os discos rígidos também estão ficando cada vez mais rápidos. Já o Blu-ray deve estacionar no limite máximo de 48X.

Densidade: trabalhar com uma única espécie de mídia é melhor e mais simples que lidar com 6 ou 10 tipos diferentes. A elevada densidade dos discos rígidos atuais os torna mais convenientes.

Custo: além de não terem sido popularizados nos PCs os gravadores de Blu-ray são muito caros bem como a mídia. Enquanto isso, um HD Firewire ou USB custa em média 100 dólares no mercado internacional, e oferece tempo de acesso muito mais rápido, mais capacidade de estocagem e transferência de dados. Se existisse demanda os preços de harware e mídia Blu-ray poderiam cair, mas quem garante que essa demanda acontecerá?

A história evolutiva da informática demonstra que a medida que as atualizações tecnológicas acontecem os meios eletrônicos de cópia e armazenagem de dados são sucateados. Por isso Umberto Eco ridicularizou a breve duração dos disquetes.

Para que dados arquivados eletrônicamente continuem podendo ser consultados, editados e reproduzidos, 20 anos é um prazo padrão para a mudança dos sistemas de armazenamento de informação. A migração digital consome tempo e muito dinheiro. Para se ter uma idéia, armazenar e manter íntegra uma cópia master digital em alta resolução de um filme, custa cerca de 12,500 dólares por ano. Arquivar uma cópia comum do filme custa 1.000 dólares anuais.

O Centro de Conservação Audio Visual da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, gasta milhões de dólares por ano arquivando músicas, noticiários de rádio e televisão e todos os livros publicados sobre a história norte-americana. É um volume extraordinário de informação. Até 2012 a instituição que este ano armazenará cerca de 4 petabytes estará arquivando 20 petabytes anualmente. Um petabyte equivale a um milhão de gigabytes e representa algo como 330.000 horas de programação de TV.

A maior parte dos consumidores domésticos ainda vai utilizar por alguns anos os DVDs e um percentual menor garantirá uma sobrevida aos CDs, mas a mudança de foco e lógica na armazenagem de informação está mudando rapidamente para arquivos online (a “nuvem” oferecida pelo Google, ZoHo, DropBox, File Dropper e muitos outros serviços) e para HDs externos domésticos. A indústria ainda não cedeu ao fascínio da cloud computing & storage, mas soluções seguras já estão surgindo para atender esse mercado.

Mais e mais pessoas vão baixar conteúdo informativo e de diversão diretamente da internet, eventualmente estocando o material em suas bibliotecas digitais. Se por acaso o HD pifar, a casa for inundada ou pegar fogo, os fornecedores na internet estarão disponíveis para novos downloads. Pouca gente vai se dar ao trabalho de continuar gravando e guardando montanhas de CDs e DVDs. Os pendrives atuais com capacidade para 16, 32 ou mais gigabytes indicam a tendência e os futuros (próximos 5 anos) chips Terabit 3D possibilitarão o transporte de imensas quantidades de informação como uma atividade banal. Esse é um mercado que crescerá sem limites.

O que nos traz de volta a Jane Jacobs e Umberto Eco. É claro que o aprendizado de modos e fazeres vai continuar acontecendo no universo digital. As inúmeras comunidades, as guildas informatizadas atuais, darão conta dessa tarefa. Mas se os meios eletrônicos pifarem, devido a catástrofe natural ou desastre causado pelo homem, no evento de uma nova “idade das trevas” é evidente que o saber-como-fazer uma infinidade de coisas vai depender das frágeis memórias dos sobreviventes e sobretudo das informações acumuladas nos livros e guardadas nas bibliotecas. Nesse sentido a tese de Umberto Eco continua parcialmente válida e o papel, dependendo das circunstâncias, pode preservar melhor as informações e possibilitar a construção de uma nova cultura. Mas imaginem transportar uma biblioteca tradicional para uma colônia no espaço…

Pensando nisso o professor Tadahiro Kuroda da Universidade Keio, no Japão, criou a “Pedra da Roseta Digital”, um chip de memória wireless encapsulado em silicone. Kuroda garante que o artefato pode guardar dados por um milênio.

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O chip de memória criado pelo professor Kuroda é formado por quatro finas camadas, cada qual contendo 1.100 nano chips. A “pedra da Roseta digital” tem capacidade para arquivar com segurança durante 1000 anos dados que hoje ocupariam 480 CDs. Se fossem comercializados hoje cada super chip custaria cerca de 625 dólares.

Na Universidade da California nasceu uma idéia mais ousada. O professor Alex Zettl desenvolveu um método que segundo ele garantirá à humanidade o arquivamento seguro de informações por um bilhão de anos. Zettl propõe chips de memória baseados em nano tubos e partículas de ferro. Mais radical que a proposta de Tadahiro Kuroda, o experimento de Zettl se conseguir ser viabilizado industrialmente, pode tornar a decadência digital de dados coisa do passado.

Como testar o futuro de sua mídia digital

Leia mais sobre a Pedra da Roseta Digital e sobre o projeto da Universidade da California, aqui e aqui.

Veja as 10 mais destacadas tendências de TI para 2010, segundo a consultoria Gartner.

~ por costaacf em Novembro 11, 2009.

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